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sábado, 24 de agosto de 2019

ÂNSIA DE ETERNIDADE - E-book de José Brissos-Lino para download


A presente obra reúne um conjunto de pequenos poemas dispersos sobre temática espiritual e religiosa, escritos ao longo de alguns anos e ainda não publicados em livro.
As questões da fé e da eternidade, a revisitação de figuras, imagens e episódios bíblicos, em particular os tocantes às temáticas da transcendência e da relação com Deus, pairam claramente sobre a paisagem poética aqui apresentada, assim como alguns exercícios livres de meditação ou elevação (chamemos-lhe assim).
No fundo trata-se do discurso poético de um homem de fé, desenvolvido mais em jeito de reflexão pessoal. E o que é a Poesia senão isso?
Como bem dizia Miguel de Unamuno “acreditar em Deus é antes de mais e sobretudo querer que ele exista” (Do Sentimento Trágico da Vida, 1913).
É por isso que esta obra pode constituir inspiração significativa para quem for capaz de a saber ler, e elevação espiritual para quem aspira à eternidade e sente que ela está a passar por aqui.
O Autor
Para realizar o download do livro pelo site Google Drive,CLIQUE AQUI.

domingo, 2 de dezembro de 2018

POESIA EM 500 CITAÇÕES: Algumas das melhores definições e reflexões de todos os tempos sobre a poesia e o poema, o poeta e o fazer poético - Livro gratuito


  


   Além de poeta, esse mal menor, tenho há mais de uma década sido editor de poesia. Ao longo do tempo, vez por outra fui indagado por poetas, sejam iniciados, iniciantes e outros que sequer deram o primeiro verso, mas, temerosos, soltavam questionamentos em busca de rumos e indicações que lhes permitissem o ingresso nessa Pasárgada Total que é a Poesia:

O que é a poesia? O poema? E o poeta?

        Um dos motes para a realização desta antologia de citações é esse: Ofertar, num golpe único, algumas das melhores definições e reflexões sobre o que é a poesia e o poema, o poeta e o fazer poético. Assim poetas, o almirantado, mas também marujos vários: críticos, filósofos, santos e bunda-lêlês aqui estão vaticinando suas assertivas, algumas delas realmente extraordinárias, é preciso dizer. E ainda descemos aos últimos porões do léxico: São 17 os dicionários consultados pelo verbete poesia.
        Um livro de graça. O trigésimo? Após quase vinte antologias poéticas, uma (meta)antologia em prosa sobre a poesia em si, em dó, em lá de bem dalém do Bojador. Sim. Mais uma estrofe quixotesca de meu trabalho de pichador de muros e promotor literário, editor e antologista  de poesia primeiramente. Sei que essa faina frágil, robinhoodiana de piratear sintagmas no Mar dos Ingratos há de me render um dia não a forca mas homenagem  uma estátua, construto de fumaça, na mais imaginarinútil de todas as ilhas do Atol de Utopia. Que seja. Queimo minha nau pelo prazer da ardência e o torpor da fumaça: sou um multiplicador de embriagados. Apesar da ingratidão dos homens e das musas, tudo que sei é esse navegar. Nunca prestei pra mais nada na vida, e para essa ardência em águas me conservou o Deus.
        Bem-vindo a bordo da nau incendiada, marujo. Queime seus pés no tombadilho ardente, produza ar quente para insuflar o que restam das velas e o que você tenha de asas. E encontre, ao tombar o horizonte, aquilo que busca.

Sammis Reachers 

PARA BAIXAR O LIVRO (FORMATO PDF) PELO GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI.

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Carta à Árvore



CARTA À ÁRVORE

Sammis Reachers

Torre transterna,
                          Transuterina
Verde malha de açambarcar
Estaca que a vida finca
Patamarizado playground,
                                        Estação clorofila
Biopilar da paz

Terramáter véu
Usina alquímica
A nutrir o sistema-Terra

Obrigado eternamente obrigado
Por alimentar-nos
De proteção e pão
Por verdecer para que não
                                          Ressecássemos
Nós seus vorazes algozes agradecemos
Por nos servir
De berço,
                 Púlpito
       E esquife
Perdoa-nos a nós os desgalhados entes
Nós a raça kamikaze de sem plumas
E sem clorofila



Do livro Árvore - Uma Antologia Poética (baixe gratuitamente AQUI).

terça-feira, 5 de junho de 2018

ÍTACA, poema de Konstantinos Kaváfis


Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Poseidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Poseidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 


Tradução de José Paulo Paz
In O Quarteto de Alexandria 


quinta-feira, 31 de maio de 2018

POESIA E ARTES PLÁSTICAS NO INSTITUTO DE CRISTIANISMO CONTEMPORÂNEO. LISBOA

Sombras da memória: olhares sobre o Holocausto


/https://iccontemporaneo.wordpress.com/2018/05/30/sombras-da-memoria-olhares-sobre-o-holocausto/

"MARCHA"
Na marcha final para estes olhos escuros
Que se arrastavam como os pés, a morte.
Não é um caminho de fugitivos, nem houve tempo
Para subirem a casa do Senhor, são um rebanho
Uma fila de olhos sem regresso que caminha
Os corações devem ter-se derretido a cada passo
Mentindo desesperadamente
Sempre um novo horizonte. Não haverá
Ninguém para despejar a areia dos seus sapatos.
07/03/2018
© João Tomaz Parreira 


quinta-feira, 8 de março de 2018

MULHER


(Michelle Obama)




“Fragile, opulenta donna, matrice del Paradiso”
Alda Merini


Não és assim tão frágil como dizem
Aqueles que espreitam ainda através
Das árvores do Paraíso, depois de tudo
O que se passou és um grão de dor
Nos olhos de Deus, o teu sexo fraco
- ainda dizem, É mais forte do que o nosso
A maravilha é que tu sabes chorar
E são as tuas lágrimas que ainda regam a terra.


07/03/2018

© João Tomaz Parreira


domingo, 25 de fevereiro de 2018

O GRUPO, poema de Paulo Cavalcanti de Moura


O GRUPO

Paulo Cavalcanti de Moura

O grupo é assim:
Gente que é gente
E que não sabe que os outros são gente
Como a gente,
Com um lado bom e outro ruim

No grupo tem de tudo:
Botucudo e tupiniquim.
Tem falador e tem mudo,
Mas ninguém é igual a mim.

Tem doutores e tem tímidos,
Agressivos e dominados
Tem mãe e tem filhos,
Tem até mascarados.

E o grupo vai girando,
Mudando a vida da gente
O calado sai falando,
O pessimista contente

O grupo é como a vida,
Mas se entra, já vamos indo
Quem ri acaba chorando,
Quem chora, acaba rindo

Uma coisa a gente aprende:
Que o outro é como eu
Chora, ri, ama e sente
Mas quase tudo depende da gente:
Que  grupo danado! Que vivência atroz!
O eu e o tu se atacam
Mas depois eles se amam,
Em benefício de nós.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

VOCAÇÃO SEM SAPATOS



De tarde depois da escola, todo o universo
É meu, conjugado nas letras que aprendi, reescrevo
Desenho no caderno a alegria 
Dos meus olhos, não preencho formulários
As minhas palavras são livres
O sol esta tarde aqueceu-me os pés, no chão
Começo a ser um homem, todos os dias
Como uma pequena ave que salta e aprende.

09/10/2017


© João Tomaz Parreira

sábado, 28 de outubro de 2017

Amor Celestial, poema de Ralph Waldo Emerson


Amor Celestial

Bem longe, lá no alto, 
Acima de tudo e de todos
Firmado no mais puro dos reinos, 
Acima do sol e das estrelas, 

Está a montanha do amor -
Corações que amam são fiéis,
Gostam do que é justo, por isso são tão caros , 
Ficam desgostosos com os falsos amores 
                                                              
Que preferem a si mesmos conferir louvores ;
Mas os que para amar foram desenhados,
E os  que para abençoar foram separados,  
Não podem cessar de estender a mão.


E não podem mais se esconder do irmão,
Pois é no ajudar que está a sua beleza,
E em ser humilde é que está a sua nobreza;
Pois esta é a riqueza do amor,


Não em repartir o ouro e o pão,
Nem em se vestir como um rico artesão,
Mas, em  fazer da simplicidade uma ciência,
E falar sempre o discurso da inocência,

E no calor do verão ou no frio do inverno                                                         
Levar sempre adiante o conselho do Eterno.     
...Porque Deus vem alimentar os homens todos os dias                   
Mas somente alguns estão com as mãos abertas para receber.


domingo, 1 de outubro de 2017

Juventude, poema de Mário Faustino



. . .Juventude —
a jusante a maré entrega tudo —

maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento —
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro,
                                                [ o rasto —
maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!),
tragado pelo vento, assinalado
nos pélagos do vento, recomposto
nos pósteros do tempo, assassinado
na pletora do vento —
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a posto,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento,
encapelado vento —
mar à vista da ilha,
eternidade à vista
do tempo —

o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento —
e a terna idade amarga — juventude —
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vista
de si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoa
do tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo —
maravilha de estar assimilado
pelo vento repleto
e pelo mar completo — juventude —

a montante a maré apaga tudo 



em "O homem e sua hora e outros poemas". (Organização Maria Eugenia da Gama Alves Boaventura Dias). 1ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


domingo, 24 de setembro de 2017

Propiciação à Topofilia - Sammis Reachers

Jurujuba, Niterói, 2011. Sammis Reachers

Propiciação à Topofilia

“... espaços proibidos a forças adversas, espaços amados.”
Bachelard

espaços abertos
desertos
verdes semi-verdes
pelo vento municiados:

paraísos do possível

Éden desfeito ressonando fragmentário
ruído de fundo à espera no espaço
de quem lhe vibre à frequência:
um herdeiro para lugarizá-lo 

domingo, 4 de junho de 2017

Fundação, um poema do amor


Fundação

Eu fugia, sátiro por corsários
Amotinados
                        Mutilado
A entrelaçadora, a Escuridão
Me cirandava esfaqueava e enfim deitava
Às paredes do labirinto
                               Que me nascia:

O frio me desnudava
Vazio após vazio e vazio
Eclipsava no infinito, falsa
Crisálida que leva de processo
A processo, sem final em seu cio

Esperei pelo levita,
O escriba e o sacerdote
(e Lutero não trans
tornou a Terra num orbe de sacerdotes?)

Por fim, o samaritano:
Passou ao largo, ocupado o mui coitado
Em fazer guerra ao judeu (e quem nunca?)
Que os tempos primam pelo mal

E ela apareceu, descendo com a noite
mínima ninfa solitária

Sobre cada uma
                   Minha
    Cicatriz
Ela deitou uma flor, freira das heras
Pródiga em unguentos e emplastros
Karma & cura
Para minha colectânea de feras
           
E unimunimo-nos de nós:
A flora e a fauna
                Dum planeta erradio,
Pais fundadores de nossa imprópria

Raça de seres milifelizes.

Sammis Reachers

sexta-feira, 10 de março de 2017

O Judeu Eterno, poema de Iaacov Cahan


O JUDEU ETERNO

Um Judeu errante encontrou certa vez um homem
com um machado na mão, o trajo sujo de sangue.
O Judeu murmurou: "Deus!" e para trás deu um pulo.
O homem também se assustou, o seu rosto fez-se escuro.
"Por que erra você por aqui, Judeu?" disse ele.
O Judeu sentenciou: "Deus permanece sempre".
O homem gritou furioso: "O que é que você murmura?"
O Judeu replicou: "Deus é juiz, faço anúncio".
Ele brandiu seu machado, golpeou o Judeu no rosto.
O Judeu caindo gritou: "Deus vinga o que está morto!"
Ora quando o mesmo homem um dia se foi à praia,
Deparou-se-lhe o Judeu quando ia de um lado a outro.
Aturdido ele gritou: "Mas como, você ainda vive!"
Deu-lhe o Judeu a resposta: "No Senhor subsisto".
Agarrou ele o Judeu, jogou-o dentro da água.
O Judeu afundou e não proferiu palavra.
Ora quando o mesmo homem um dia saiu para a caça
encontrou ele o Judeu, esperando-o, cara a cara.
Danou-se ele e berrou: "Com vida sempre você!"
"Com auxílio do Senhor!" respondeu-lhe o Judeu.
Ele fez pontaria, acertou-lhe um projétil no peito
o Judeu caiu; e caindo invocou seu Deus.
Aquela noite o homem sonhou. E que sonho foi que teve?
Ante ele estava o Judeu. Vivo, aparentemente.
Ele o fitou com agudez, e murmurou uma vez outra:
"Deus vê o que se passa, Ele é juiz como outrora".
Ele saltou para o agarrar, ele brandiu o seu punho.
O Judeu se ergueu no ar e se desmanchou entre o fumo.
Pela manhã ele escutou as suas batidas à porta.
Pela tarde ainda o viu, defronte, dando passadas.
Ele voltou nos seus sonhos. Ele até hoje ainda volta.
Ele perturba o seu sono, seus vagares, assim falam.
Que poder nele se oculta? Que segredo se veda?
Ele tem Deus nos seus lábios, na sua ascensão e sua queda.

Tradução de Zulmira Ribeiro Tavares

In Quatro Mil Anos de Poesia (Org. de J. Guinsburg)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Palavras Crianças no Jardim de Aula, novo livro de Pedro Marcos Pereira Lima


O escritor e poeta Pedro Marcos Pereira Lima acaba de nos brindar com sua mais nova obra. Palavras Crianças no Jardim de Aula, uma publicação da Editora Scortecci (selo Pingo de Letra) reúne poemas de incentivo à leitura de interesse geral, mas focadas notadamente no público infantojuvenil.

"O gosto pela leitura pode surgir através da poesia, desta forma aumenta o interesse em escrever. A poesia mexe com o imaginário dos jovens, das crianças, e dos adultos que ainda carregam a infância dentro de si levando-nos a expressar vontades, descobrindo que se pode brincar com as palavras.
aqui
poesia quer
contar histórias
que são das palavras
que vão se contando

mas não é só a história
em si que conta
é o contar

que não se calcula na contagem
quando o "o" troca-se por "a"
e contar vira cantar
de fantasias e realidades..."


O livro possui 60 páginas e custa R$ 30,00.
Interessados em adquirir a obra, entrem em contato pelo e-mail: pemarc@ig.com.br

sábado, 3 de dezembro de 2016

HIROXIMA






“Toda a manhã, a manhã escureceu”
Sylvia Plath

Dias depois os homens saberiam
Que ninguém ressuscitou em Hiroxima
As cinzas sem forma, nem memória
Do que foram corpos, só sombras
Pelo chão , nem sequer Lázaros
Mendigos à porta da riqueza
Mas não havia portas
Onde bater um grito, um pedido de refúgio
Não havia casas onde guardar as lágrimas
E as meditações partidas de Buda
Deus foi magoado no céu e já não põe as mãos
Feridas no lume pelos homens.

03-12-2016
© João Tomaz Parreira



terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mia Couto: A Escrita Exige Sempre a Poesia



Sou escritor e cientista. Vejo as duas atividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura. 

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo. 

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano. 

Mia Couto, in 'Pensatempos.' 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

AS PESSOAS NUM POETA NEO-REALISTA




Quarenta figuras humanas perpassam, ou melhor habitam, na poesia de Manuel da Fonseca. Quem fez o inventário foi o escritor e crítico ilhavense Mário Sacramento, no seu quase clássico “Há uma estética Neo-Realista?(1968:80).
Enquanto que palavras recorrentes na poesia de um autor se consubstanciam semântica e metaforicamente, vocábulos que vêm da matéria e do que é imaterial, ilidindo mesmo sujeito e objecto, por exemplo os da poética de Eugénio de Andrade, outros poetas informam sobre pessoas com nomes e existência concreta.

Podemos enumerar uma breve lista de palavras eugenianas: 
Mãos, dedos, olhos, rios, fontes, choupos, juncos, folhas, espigas, feno, erva, rosas, pólen, frutos, romãs, laranjeiras, aves, cavalos, lume, fogo, luz, verde, carmim, púrpura, brisa, dança, flauta, montes, nuvens, astros, estrelas, luas, charcos, a noite e a madrugada. (vd. “As mesmas teclas de Eugénio de Andrade”, in Blog Poeta Salutor (2010: 11/3)

Vejamos, por outro lado,  o que concerne ao poeta e romancista do neo-realismo e do “Novo Cancioneiro”, Manuel da Fonseca.
E por aqui eis-nos chegados à dialética da personagem, do sujeito poético, do nome, da actividade, do local de origem, das figuras humanas que estão nos Poemas Completos do poeta de Santiago do Cacém, falecido em 1993.

Maria Campaniça, Jacinto Baleizão, Zé Cardo, Toino, Rosa Charneca, Francisco Charrua, Zé Jacinto, Marianita, Zé Gaio, Julinho da ourivesaria, Zé Limão, Manuel da Água, e Mariazinha Santos;  malteses, vagabundos, mendigos, campaniços, guardas,  o coro de empregados da Câmara, António Valmorim, a Nena de Montes  Velhos,  o Terceiro Oficial de Finanças, entre outros nomes e vidas.

No poemário “Planície”, de 1941, no início da década fértil para a poesia neo-realista, embora o poeta José Gomes Ferreira tenha afirmado que “o social não era a característica principal da poesia do Novo Cancioneiro” (a Memória das Palavras), a verdade é que MdF traduz essa particularidade representativa das problemáticas humanas e sociais, do campesinato e da urbanidade, da seara e da fábrica, logo para o início daquele volume de poemas.

Um local: Cerromaior, que é também título do primeiro romance do poeta, é um lugar inventado que contém, no entanto, as realidades e as gentes, doutros lugares autênticos do vasto Baixo Alentejo – e.g. Cercal -, área predominante, senão mesmo exclusiva na poética do autor.
Depois, o lugar começa a revelar particularismos da vila, como tipicamente alentejana, o “Largo” de onde partem todos os “caminhos”, o “Largo” que era “o centro do mundo”, onde estão os “guardas” com a lei, mais adiante o “montado” genuíno, o “vagabundo rasgado”; ou a aldeia com “nove casas, / duas ruas, / no meio das ruas / um largo”, o “monte”. O tópos é fundamental na poética de Fonseca, como os Alentejo, “Beja, Cercal. Em alguns casos, especificamente, noutros como metonímia.
Poderia continuar pelo seu léxico fora. A própria dimensão do espaço, que às vezes é físico, outras psicológico, na poesia do autor de “Seara de Vento” é também recorrente na dimensão, por vezes, trágica dos nomes.

Na poesia ( como na prosa: conto e romance), “Manuel da Fonseca continua a existir com a sua frescura inicial e a sua energia, a sua capacidade de comover e seduzir” – escreveu  Mário Dionísio, há quase cinquenta anos.


30-08-2016


© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

CARTA DE ALFORRIA


vai, escravo buscar a carta da tua alforria
o teu passo ainda hesita, estará a carta pronta, quem
a assinará? quantas folhas a compõem? de que árvore?
vai o pensamento à frente e o passo

vai confessante as palavras depositadas no selo
escarlate que identifica o senhor
é a garantia do que a mão espera apreender:
a carta
lustral que torna eficaz a alforria
a declara inscrita nos céus, riscada por um cometa
escarlate do sangue do escravo

o teu sangue, escravo, com ele
for riscado um tapete
que os teus pés pisam
e os fere em brasa
como se fosse uma punição
por uma culpa qualquer que é só tua
a culpa de querer a alforria

mas fizeram-te a promessa,
e esse escarlate é agora
os sapatos da corrida
que tu encetas, pois acelera, vai,
cessa de prender o passo no chão
das hesitações
para trás das costas ficaram os chicotes
vai, escravo, transpostos os estratos do sonho
vai de cabeça alta e pernas firmes
como cedro do Líbano
buscar a carta da tua alforria

Rui Miguel Duarte
12/01/2016

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