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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

KADDISH POR MEU FILHO ABSALÃO


«Quem me dera que eu morrera / Por ti, Absalão.»
Rei David

Na alta abóbada de uma árvore
o teu cabelo chamou a morte
A tua efémera beleza
emaranhada no lugar dos ramos
como frágil presa
Um corpo sonâmbulo colhido como um fruto
como um pássaro nocturno
onde a morte depositou os dardos
Meu filho, Absalão, meu filho
ai o teu coração sozinho, permeável
ao vento sob a árvore.

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O QUE NÃO QUERO



Não quero uma coroa
que me esmague a cabeça, nem louros
que deem a impressão de ter impérios
Camões teve-a
em troca do seu olho e morreu de fome
Não quero coroas de rosas, que são para
as virgens que envelhecem sem destino
Nem muito menos
quero uma  coroa de espinhos
onde o  sangue floresça, só uma
cabeça a pôde ter e o sangue correu
pelo arco-íris dos seus olhos
Não quero nada, nem esse vinho
em taças de alabastro da poesia.   

04/10/2017

©  João Tomaz Parreira

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O NEGRO





“O negro foi inventado”
James Baldwin



O negro foi inventado, não foi a Bíblia,
Nem o livro do Génesis quem o inventou
Quem viu a palma das mãos de Cam?
Eu não inventei o negro, e todavia
Sou negro, por contrapartida com o branco
O negro foi inventado, e não foi Deus
Quem o inventou, Ele não se sentou
No pó do Éden para criar negros
E brancos, mas para criar o Homem
Algumas religiões inventaram o negro
Era preciso alguma coisa para ter medo.

27/09/2017

© João Tomaz Parreira 

sábado, 16 de setembro de 2017

O AMOR NO ÉDEN

(William Blake, 1808)



Depois do primeiro olhar
Para a mulher, continuou
Adão a tocar-lhe, agora com a flor
Dos dedos, carne da sua carne
Ossos dos seus ossos
Adão e Eva debruçados
Nos olhos um do outro.


16/09/2017

© João Tomaz Parreira 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A ORAÇÃO NO GETSEMANE





Seria bonito desaparecer no ar, voltar a casa
Com o odor no corpo das flores
Que Tu criaste, passar entre as folhas
Das oliveiras como o beijo do vento
Seria fácil mesmo com os joelhos feridos
Do chão de onde a minha prece se elevou
Se assim fosse o que seria dos homens?
Morreriam para sempre na minha dúvida
Se é possível que o cálice passe, seria fácil
Não o tragar, não olhar para trás, evanescer no ar.

13/09/2017
© João Tomaz Parreira 


domingo, 27 de agosto de 2017

A PROBABILIDADE DE SER POEMA



«Eν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.»


Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze. A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider ( 1776-1848) no que concerne à autoria do Evangelho. 
Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral 
( in “Probabilia”).

Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.

Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.

É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus 
Filosofias gnósticas do Século I.

Estruturalmente, ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.
No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Biblia - Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.

De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética, reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.

No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος) Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.

“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”. Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.

Contudo, quer este verso inicial quer todo o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.

Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.


A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”. A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo. 

© J.T.Parreira

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

POEMA DE MARIA MADALENA JUNTO AO SEPULCRO



Onde puseram o meu Senhor ? Mesmo morto
O seu corpo receberia o perfume dos meus olhos
Onde o puseram Ele não é um morto
Como os outros para que o Seu corpo se consuma
O meu choro é o que sobra do meu coração
Tanto amor, sem retorno físico, preso
Na indiferença da morte
Dizei-me anjos, vós que não trouxestes
Do céu os crepes com que se amortalham os mortos
Não sei onde o puseram, e a Sua ausência
Mais enobrece o meu amor, sou uma mulher simples
Que rompeu as cadeias dos olhares dos homens
Para vir derramar-se junto ao seu sepulcro.

06/08/2017

© João Tomaz Parreira


segunda-feira, 31 de julho de 2017

A MULHER DE LOT





Presa a alguns vestidos, os únicos

Que a pressa arrancou de casa, sonâmbula

Na fuga da destruição, e indecisa

Entre um lugar e outro, um olhar e outro

Para trás onde a casa começa a derruir

Um rio de lava a morrer nos olhos

E a estrada em frente

O que pesa nos seus olhos

Que a levou ao fundo, um olhar para trás

E tornar-se um marco no caminho?

Um corpo salgado aonde as aves vão

Debicar o sal e deixar rastos de plumas

No corpo da mulher de Lot nenhuma vida

Agora se repete, é uma língua morta.


30/07/2017


©  João Tomaz Parreira

domingo, 16 de julho de 2017

SENHOR LAZARUS



“A sort of walking miracle”
Sylvia Plath



Aquele que veio do outro lado
da morte, com os olhos cheios
de intraduzíveis paisagens
Lázaro voltou
enriquecido com o seu silêncio
de ouro.

16/07/2017


© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 28 de junho de 2017

CASA DE ORAÇÃO

“Vês estas grandiosas construções? Não deve ser aqui deixada
Pedra sobre pedra que não seja desmoronada”
Marcos, 1, 2


Quando fechares um dia as tuas portas
não será porque a noite
desceu o véu translúcido sobre as coisas

Ou porque te falte o amor
 para acolher os homens e mulheres perdidos
será porque a bagagem estava pronta e Ele veio.

Há sinais que o mundo ignora, o sangue
nas estrelas, a qualquer hora os mares
podem erguer-se do seu profundo leito
e os sismos
que abrem fendas nas nossas arquitraves

Quando fechares as tuas portas
será porque à hora mais inesperada
os relógios deixarão de ter valia
virá  Aquele por quem anseia a nossa alma

A qualquer hora da noite nos levantaremos
a qualquer hora do dia, subiremos de repente
pelo algodão das nuvens
e a casa de oração fechará as suas portas

E quem entrar, porque perdeu a noção da hora
encontrará cadeiras e talvez algumas mãos vazias
quando vier  Aquele que se espera
haverá um silêncio assombrado que passa
nos olhares dos homens
baterão com insistência à tua porta

Mas será o silêncio de Deus que encherá
para sempre os cantos mais recônditos
mesmo os mais iluminados desta casa.

16/6/2017

© João Tomaz Parreira

sábado, 24 de junho de 2017

a Mulher



Onde estão, Mulher, aqueles teus acusadores?
que vieram escondidos atrás das sombras
como falsificadores de Moisés, onde estão 
aqueles que escutaram através das paredes,
que não vêem
senão a carne dos dramas alheios, os que trazem
o incenso do sexo na cabeça
e denunciam o que pode ser um amor
errado, mas ainda assim amor.
onde estão, Mulher, aqueles acusadores
que se vestiram com vestes empertigadas
para o solene cortejo, para te levarem ao cúmulo
das pedras, onde estão agora
aqueles que usaram na voz a volúpia rasteira,
todos aqueles que medem tudo com o ranger
dos dentes da sua santidade?

22-06-2015
© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 8 de junho de 2017

TOQUEI NO PECADO E NÃO ERA A BELEZA



“Não desejo o caminho do mundo
Sua paixão não me atrai”
Han-Shan



Toquei no pecado e não era a beleza
Que eu sonhara, não havia os encantos
Da liberdade, ao redor da qual me sentei
Os meus lábios lutavam ainda
Queriam vencer uma língua impura
A minha cabeça foi um abismo
Até que as palavras de Deus
Lhe fizeram a luz, a luz deu passos
Seguros para os meus olhos, essa luz
Estendeu todo o amor do invisível
Para os cristais dos meus olhos ofuscados.



06/06/2017

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 17 de maio de 2017

À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL






À ENTRADA DA TERRA DO LEITE E MEL

(Livro de Números, XIII )

Como os olhos dos doze às portas do leite e do mel
o desânimo vai ter olhos e as alegrias diante das videiras
de enormes cachos serão menores que o medo
o desânimo fará aumentar nas retinas
a estatura dos homens, gigantes como colossos
ocupam  as portas, o medo bate nos olhos
o desânimo aconselha cuidados,  regressar
às areias do deserto, à cabeça escondida na areia
e às sombras dos pequenos arbustos, não temos
ainda braços para abraçar a Terra Prometida.

16-05-2017

© João Tomaz Parreira  

sábado, 15 de abril de 2017

MARIA MADALENA


(Germain Pilon, 1537-1590, The Ressurrection of Christ, Louvre)



Maria Madalena seguiu o rasto do perfume
do seu Amor e chega cedo ao sepulcro
Maria Madalena ouvia
cada sombra do caminho e esperava do fundo
do sepulcro o silêncio matinal, onde queria
entrar docilmente com perfumes
levava nos seus olhos a tristeza
de flores minúsculas à chuva
o seu coração carregava uma dúvida
Mas se a Morte existe
é porque depois existe a Vida.


15-04-2017

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 31 de março de 2017

ALMOÇO NO TOPO DE UM ARRANHA-CÉUS




Como folhas presas no mesmo ramo
procurando no topo o lugar
 do sol.  Enquanto no solo
pequenos seres
raspam no chão o musgo, procuram
ganhar o dia,  correndo sob o mistério.
Vários rostos do mesmo inteiro ramo,
só quando o ocaso desce, saem das alturas
e se misturam na multidão.

31-03-2017

© João Tomaz Parreira  

quarta-feira, 29 de março de 2017

VIGÍLIA


Foto: Catherine Leroy, Vietnan, 1967


Senhor, partiram tão tristes
Os seus olhos, tão raiados de sonhos
Ainda há pouco punham a vida em dia.

Falávamos de planos, um cigarro
Ardia como única chama dos lábios,
Falávamos da primeira mulher
Que amamos, tão longe o nosso coração.

De Deus falamos às vezes, tão longe
Entre nuvens, aonde quer que fossem
Só os nossos passos cortavam o silêncio.

Agora os seus olhos partiram e só
Têm as minhas lágrimas, que me golpeiam
As pálpebras. O sol tropical é um pobre
Fantasma ele também entre a névoa matinal.

29-03-2017

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 15 de março de 2017

Novo livro de J.T.Parreira: Sou Lázaro e Vou Recomeçar


Em seu mais novo e-book, o estimado poeta João Tomaz Parreira, com sensibilidade e singularidade emblemáticas, nos apresenta uma reunião de poemas tendo por eixo temático esta personagem ímpar das escrituras, Lázaro, (protó)tipo de todo homem que se achega a Cristo.

Para baixar o livro pelo GoogleDrive, CLIQUE AQUI.
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Para baixar o livro pelo 4Shared, CLIQUE AQUI.

domingo, 12 de março de 2017

O CAMINHO PARA EMAÚS

Conversávamos pensativos sobre as coisas
Que aqueles dias nos traziam, os prodígios
Que acabavam, por terra
Quase o terceiro dia, a noite
Na palma das nossas mãos vazias
Até que sem nenhum gesto grandioso
Senão o do instante, Alguém
Se aproximou a um passo de distância
Dos nossos olhos cegos
E sabia, esse Estranho, tudo o que sabia
Deus veio à nossa mente.


09-07-2014

©  João Tomaz Parreira

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A ORELHA FERIDA DE VAN GOGH






Ponho-me na orelha de Van Gogh
Como Van Gogh
Metia nas suas botas gastas
Os pés, que punha e tirava. A orelha
De Van Gogh levava consigo o crocitar
Dos corvos e o brandir de espigas
Contra os céus. Ponho-me no lugar
Do silêncio da orelha de Van Gogh
Ele fê-lo por necessidade, para ouvir
Apenas o que vem depois de nada.

27-05-2016 
© João Tomaz Parreira

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